|
Sabe no futebol
quando você está naquela pressão dos minutos de acréscimo? É assim
que me sinto", disse ao G1 Efraim Zuroff, o maior caçador de nazistas do mundo, com uma risada
desesperada ao telefone. Ele se referia ao pouco tempo que tem para
colocar no banco dos réus alguns nazistas suspeitos - e até já condenados
- por atos criminosos durante a Segunda Guerra Mundial. Na semana
passada, Adolf Storms, um dos homens mais procurados por Zuroff,
morreu na Alemanha, aos 90 anos. "Infelizmente, muito infelizmente, ele morreu sem ser julgado", disse o historiador.
Comente aqui esta notícia
O norte-americano Zuroff não teve pais ou avós que sofreram no Holocausto,
mas o assunto chamou sua atenção quando ainda era estudante universitário. "Comecei
a pesquisar na época da Guerra do Vietnã. Ninguém falava sobre
isso nos EUA." Hoje, ele comanda o projeto "Operação Última Chance", do Centro Wiesenthal, que objetiva encontrar os últimos criminosos e pressionar
as autoridades dos países a exigir sua extradição e processá-los.
Zuroff acabou de publicar sua história em livro: Operation Last
Chance; one man's quest to bring nazi criminals to justice, inédito
no Brasil.
Leia a entrevista de Efraim Zuroff ao G1:
G1 - Adolf Storms morreu há pouco tempo. Ele estava em quarto na lista de procurados,
certo? O senhor poderia falar um pouco sobre ele?
Efraim Zuroff - Ele estava na lista nova. Todos os anos em abril
ou começo de maio nós divulgamos uma nova lista, que está em nosso
site [clique para ler, em inglês]. Ele estava em quarto lugar na
lista. Em primeiro lugar, nós não merecemos crédito por esse caso.
Ele foi encontrado quase por acidente por estudantes austríacos que
estavam pesquisando o tema. Eles começaram a procurar as pessoas
envolvidas e conseguiram encontrar Adolf Storms. Essa informação
foi enviada a procuradores que o indiciaram. Ele seria colocado em
julgamento, mas morreu antes. Infelizmente, para nós.
G1 - Qual a última pessoa que o projeto conseguiu rastrear e colocar em julgamento?
Zuroff - Neste momento, por exemplo, Ivan Demjanjuk está sendo julgado.
Nós não o levamos a julgamento, mas tentamos influenciar o governo
alemão a o colocar em julgamento. Então nós não fazemos todo o
trabalho, fizemos pouco, mas é um exemplo de que são esforços que
têm que ser tomados de maneira conjunta para isso acontecer.
G1 - E quais os maiores desafios para se colocar um
suposto criminoso nazista no banco dos réus?
Zuroff - Acredite ou não, o maior desafio é fazer com que os países
que precisam julgá-los de fato o façam. Kepiro [Sandor Kepiro] é
um exemplo clássico. Nós o achamos. Na verdade, ele já havia sido
julgado na Hungria em 1944, pelo crime que nós descobrimos, e foi
condenado. Mas porque a Hungria foi ocupada pelos nazistas, ele não
foi punido. Foi culpado de um massacre na cidade de Novi Sad, na
Sérvia, junto com outros agentes. Por causa da invasão nazista, ele
teve sua pena suspensa, e as pessoas que foram punidas com ele acabaram
promovidas e voltaram à ativa.
E no fim, Kepiro acabou fugindo. Nós só o descobrimos
há quatro anos em Budapeste. Eu entrei em contato com o governo húngaro,
achei o veredicto original de sua condenação; e ele não negou que
estava em Novi Sad naquele dia. Ele simplesmente diz que não matou
ninguém, que não apertou o gatilho. Mas claro que há vários tipos
de criminosos, nem todos apertam o gatilho. Alguns fazem outras coisas
para ajudar a matar pessoas.
G1 - E ele não foi julgado de novo?
Zuroff - Não há uma decisão. O governo diz que está investigando.
Mas isso já dura quatro anos. Esse é o problema. Sabe o quê? Você
poderia me fazer um favor: ligar na embaixada da Hungria no Brasil
e perguntar o motivo de Sandor Kepiro ainda não ter sido colocado
em julgamento. [risos]
G1 - Por que o senhor acha que não há vontade política por parte dos países para
caçar nazistas?
Zuroff - Te direi o porquê. O jeito mais fácil de explicar é comparar
um criminoso nazista com um serial killer. Se existe um matador em
série, vamos dizer, em São Paulo, a polícia fará o possível para
deter essa pessoa, pois existe a pressuposição de que aquela pessoa
vai cometer assassinato de novo! Certo?
Mas com os criminosos nazistas não há perigo de que eles cometam crimes de novo.
Então eles não são perigosos nesse sentido. Então tudo o que se precisa
fazer é ignorá-los e eles morrerão. Isso poupa o país de um grande
constrangimento e poupa dinheiro.
Acho que uma das coisas mais importantes que ajuda
a explicar porque o Holocausto aconteceu é que 99% das pessoas que
cometeram crimes eram gente absolutamente normal. E são pessoas que,
em circunstâncias normais, que não as criadas pelos alemães nazistas,
nunca cometeriam assassinato. essa é a coisa mais terrível do Holocausto.
Pessoas normais cometendo crimes achando que era uma coisa normal.
As pessoas olham essas pessoas hoje e dizem: 'deve
ser um ótimo avô, indefeso'. E na essência eles são inofensivos,
pois não vão cometer assassinatos de novo, mas eles cometeram no
passado. Não há motivos para ignorar isso só porque ele não matará
de novo.
G1 - E eles estão ficando velhos, estão morrendo.
Zuroff - Claro que estão morrendo! Sem dúvida, o tempo corre contra
mim.
G1 - O senhor acredita que haja algum criminoso nazista
vivendo no Brasil hoje?
Zuroff - Não temos nenhum caso em que estamos trabalhando no momento
no Brasil. Mas, se você me perguntar se é possível que haja criminosos
nazistas no Brasil, eu direi que definitivamente sim, é possível.
G1 - O senhor poderia contar como e por que começou
sua busca?
Zuroff - Eu cresci nos Estados Unidos dos anos 1960. Era uma época
de atividade política intensa, a maioria direcionada contra a Guerra
do Vietnã. Mas eu não estava tão envolvido com isso. Eu estava mais
interessado nos problemas relacionados aos judeus. E uma das coisas
que surgiram quando eu estava crescendo como estudante de faculdade
foi um interesse no Holocausto e o motivo era de que desde 1945 até
o final dos anos 1960, começo dos 1970 não havia informação ou interesse
no Holocausto na América.
E eu acredito que era porque entre a comunidade judaica havia um sentimento vago
e ruim de que eles não fizeram o bastante para ajudar seus parentes.
Mas depois desse período as pessoas começaram a prestar atenção,
pois havia um medo de que Israel fosse destruído. Pois os Exércitos
árabes estavam preparados para atacar e a situação era muito perigosa.
Eu me lembro de quando era criança, na minha casa do Brooklin, olhando
o mapa e vendo o tamanho dos países, número de tropas, via Israel
tão pequeno no meio dos países árabes e pensava: "Meu deus, vai haver outro Holocausto!"
Agora, meus pais nunca conversaram sobre o Holocausto. Eles nasceram na América,
minha família não sofreu com isso, tirando a família de um irmão
de meu avô que foi morta.
Então quando eu acabei a faculdade eu fui para Israel
me especializar e estudar o Holocausto. [...] Acabei tendo que voltar
aos EUA para coletar material e conheci Simon Wiesenthal, sua história,
e descobri que os EUA estavam começando a investigar nazistas. Antes
de voltar a Israel e trabalhar no Centro Wiesenthal, eu trabalhei
um tempo na unidade de caça a nazistas do Departamento de Justiça
Americano. E basicamente foi essa a história.
G1 - Há outra instituição ou pessoa que faz a mesma
coisa que o senhor hoje? Que caça nazistas?
Zuroff - Em instituições privadas, Ongs, não. Sou o único no mundo.
Mas há pessoas que trabalham em governos, promotores, advogados,
que estão envolvidas com processos em diversos países.
G1 - Quantos anos o senhor calcula que ainda tem para
colocar essas pessoas em julgamentos?
Zuroff - Muito poucos. Talvez dois ou três.
G1 - É muita pressão...
Zuroff - Sabe de uma coisa? Você gosta de futebol? Eu estou no tempo
dos acréscimos. É o melhor jeito de descrever, é o que sinto. Poucos
minutos para acabar. É onde estamos.
globo.com
|