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Afundado no sofá
do lobby de um hotel em São Paulo, o historiador judeu americano
Efraim Zuroff - o “último caçador de nazistas” do centro Simon Wiesenthal
- avisa de cara que não é sua primeira vez no Brasil. Da última,
em 2008, estava à caça do dr. Aribert Heim, o médico da SS que, curioso,
injetava gasolina no coração de prisioneiros dos campos de concentração
de Mauthausen, Buchenwald e Sachsenhausen. “Quê?”, deixa escapar
o repórter. Zuroff fica impaciente. Corpulento, com 1,90 de altura
e quipá de tricô pendurada na cabeça, desliza até a ponta do sofá,
apoia os cotovelos nas coxas e pega fôlego para explicar.
Uma pista no Brasil indicava que o dr. Heim mantinha contato com sua filha ilegítima
residente em Puerto Montt, Chile. A moça, nascida na Áustria, era
a isca para pegá-lo. Então, “obviamente”, Zuroff tinha de passar
pelo Brasil.
E a história segue. Acuada, a filha do médico nazista
garantiu que nunca conhecera o pai. Nem sequer sabia do seu passado.
Mas admitiu ter visto a mãe ser interrogada pela polícia austríaca.
“E não teve a curiosidade de perguntar sobre o que era o interrogatório?”,
questiona Zuroff, em límpido inglês nova-iorquino. Um ano depois,
outro filho do “Dr. Morte”, como Heim era conhecido, apresentou um
atestado de óbito do pai emitido no Cairo, em 1992. O corpo teria
sido jogado em vala comum. Compra-se o documento em qualquer shouk
(mercado) da capital egípcia, argumenta Zuroff, e ser dado como morto
é o que mais quer um fugitivo nazista. A caçada corre até hoje e,
esta semana, dr. Heim, o número 1 da lista de “criminosos nazistas
mais procurados” que o historiador distribui, faz 96 anos. Se estiver
vivo.
“O sr. acha que ainda existem criminosos nazistas
no Brasil?”, o repórter deixa escapar outra. “Há boas probabilidades”,
diz em tom de tédio o historiador, que passa a enumerar casos de
nazistas que aqui encontraram refúgio. O mais notório é Josef Mengele,
à caça de quem Zuroff, sem sucesso, iniciou sua carreira ainda como
funcionário do Departamento de Justiça dos EUA. Mengele foi talvez
o nazista mais procurado, responsável pelos experimentos médicos
em Auschwitz, mas morreu do coração na praia de Bertioga. “Essa morte,
sim, conseguiu-se provar.”
Outro que para cá veio foi Herberts Cukurs (pronuncia-se
Tsucus), famoso aviador da Letônia que serviu, voluntariamente, no
Comando Arajs, uma das mais eficientes unidades de extermínio de
judeus, ciganos e deficientes mentais. Cukurs pilotava um hidroavião
na Represa de Guarapiranga - conta-se que o fazia com a mesma jaqueta
de couro que vestia durante os massacres na Letônia. Por um ano,
recebeu proteção do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
Foi morto pelo Mossad no Uruguai.
O caçador de nazistas continua a listar: Franz Stangl,
comandante do campo de Treblinka que virou operário na fábrica da
Volkswagen em São Bernardo e foi deportado para a Áustria; e Gustav
Wagner, guarda do centro de extermínio de Sobibor, que o governo
brasileiro recusou-se a extraditar.
“Há, sim, boas probabilidades”, repete.
Panteão. Com mais cuidado, Zuroff exibe a própria
coleção de criminosos do Holocausto que trouxe a público. Nem todos
foram a julgamento, explica, pois “sem vontade política não há justiça”.
Mas, anônimos, deste mundo não vão sair.
Foi um golpe de sorte que transformou de vez o americano
nascido no Brooklin três anos após o fim da 2ª Guerra em detetive
caçador de nazistas. Zuroff estudou o Holocausto na Yeshiva University,
de Nova York, nos anos 60 (”queria entender por que o genocídio ocorreu”).
Formado, ele passou a auxiliar o governo americano no caso Mengele,
quando se deparou com o que até hoje chama de “uma mina de ouro”.
Era uma lista da Cruz Vermelha da qual constavam 60
milhões de refugiados da 2ª Guerra, seus nomes, para onde emigraram
e endereço no novo país. Zuroff fez um teste: pegou 40 criminosos
de guerra de que lembrava de cabeça e foi procurar na lista. Achou
16. Com o mapa do macabro tesouro, juntou-se ao Centro Simon Wiesenthal,
do lendário caçador de nazistas, e mudou-se para Israel, de onde
coordenaria as buscas.
Entre suas presas abatidas com base no documento,
Zuroff confessa ter uma favorita. Trata-se do croata Dinko Sakic,
chefe do campo de Jasenovac, a “Auschwitz dos Bálcãs”, onde a milícia
fascista local, a temível Ustasha, dispensou a ajuda de tropas nazistas
para conduzir o extermínio de judeus, sérvios, ciganos e comunistas.
Lá foram assassinados 500 mil civis.
Em 1998, o americano encontrou Sakic, então um senhor
de 77 anos, em Santa Teresita, Argentina. Zuroff conduziu uma intensa
campanha midiática na recém-formada Croácia, que, mesmo relutante,
decidiu solicitar a extradição. Sakic foi julgado “por um tribunal
croata, diante de uma bandeira croata e em croata”, diz Zuroff. “Daquela
vez, não diriam que era propaganda sérvia.”
A prisão do carrasco dos Bálcãs coincidiu com a Copa
do Mundo na França e, quando a seleção croata deu uma goleada de
3 a 0 na Alemanha, ouviram-se gritos de “Din-Ko Sa-Kic” no centro
de Zagreb. À época, um grupo de extrema direita chegou a pôr a cabeça
de Zuroff a prêmio: US$ 25 mil. Mas não teve jeito. Os croatas deitaram-se,
pela primeira vez, no divã da história para confrontar seu passado
no Holocausto. Sakic foi condenado a 20 anos, pena máxima na Croácia
na época, e morreu em 2008.
Zuroff explica, porém, que o estranho coquetel de
Croácia, futebol e Holocausto nem sempre lhe trouxe bom agouro. Há
dois anos, ele deu a dica e repórteres do tabloide britânico The
Sun acharam Milivoj Asner, croata acusado de ter sido chefe da Ustasha
na cidade de Pozega, onde coordenava deportações sem ordens escritas
- era advogado e sabia que instruções em papel poderiam se converter
em provas criminais. Em uma noite, teria ordenado a morte de 300
judeus que tentavam fugir do extermínio.
Os repórteres o acharam num bar de Klagenfurt, sul
da Áustria, assistindo ao jogo Suíça versus Áustria pelo campeonato
europeu, braços dados com Edeltraut, sua mulher desde os tempos da
Ustasha. Asner estava com 96 anos. “Achamos nazista procurado na
Eurocopa 2008″, foi a manchete do Sun. O caçador de nazistas foi
ao presidente da Croácia, Stjepan Mesic, que solicitou a extradição
do acusado. Mas Viena recusou. Atestaram a incapacidade física de
Asner. “Ele estava num bar bebendo e assistindo a um jogo de futebol”,
revolta-se Zuroff. O acusado continua na Áustria.
Monstro moral. “Não se sente estranho perseguindo
velhinhos?”. Idade não pode se tornar refúgio para pessoas que, quando
puderam, usaram toda a sua capacidade física para exterminar inocentes,
diz pausadamente Zuroff. Afirma ainda que, em dois anos, não haverá
mais criminoso do Holocausto para ser perseguido. Mas hoje, diante
de criminosos com o mínimo de capacidade física, é preciso fazer
justiça, afirma.
“Mas até que ponto é possível se fazer justiça diante
de um genocídio?” Zuroff pega fôlego, mas o repórter o interrompe
para esclarecer: ao assistir ao julgamento em Jerusalém de Adolf
Eichmann, arquiteto da deportação de judeus na Áustria e Checoslováquia,
a filósofa Hannah Arendt disse que a promotoria queria colocar “um
monstro” no banco dos réus, mas encontrou apenas um burocrata medíocre
que cumpria ordens e só usava platitudes para se expressar. Contudo,
o próprio Zuroff descreve como “um monstro moral” uma de suas principais
caças, o húngaro Sandor Kepiro, responsável pela morte de quase 5
mil inocentes no massacre de Novi Sad, Sérvia, em 1942. (Ele está
vivo e solto na Hungria, que se recusa a julgá-lo.)
Mas Kepiro, um ser notadamente cruel, é exceção, ressalta
Zuroff. “Foram pessoas normais que perpetraram o Holocausto”, completa.
O fato de a reparação total ser inalcançável não pode impedir a Justiça
de agir.
O caçador de nazistas aproveita para sublinhar suas
divergências com Hannah Arendt. Zuroff foi convidado a escrever o
prefácio da primeira versão em russo de Eichmann em Jerusalém, livro
no qual a filósofa explicita sua tese sobre a mediocridade do genocida.
As críticas do americano à obra foram tão duras que seu texto virou
posfácio. “Arendt, alemã ‘assimilada’, chega a mostrar ódio contra
os judeus da Europa Oriental”, diz titubeando, como quem teme se
exceder nas palavras. “Ela os acusa de colaboração ativa com os nazistas,
mas eles não tinham escolha. Líderes judeus negociavam sob a espada
para salvar o máximo de pessoas.”
A colaboração com o nazismo recebe do historiador
importância adicional, numa espécie de militância. Zuroff veio a
São Paulo para dar uma palestra no Sesc Pompeia, que abriga uma exposição
sobre o Holocausto. Antes de sua fala no evento, o Estado pediu para
tirar uma foto sua contra um painel fotográfico. Ele não quis. A
imagem gigante mostrava partisans sabotando os trilhos usados por
trens nazistas. “Vamos tirar a foto daqueles que colaboraram” com
o nazismo, disse, conduzindo o repórter até uma imagem do massacre
de Kovno, na Letônia, no qual estima-se que 9 mil judeus (incluindo
mais de 4 mil crianças) foram fuzilados, em um trabalho feito quase
exlusivamente por letões.
Zuroff evita comentar a situação entre palestinos
e israelenses e o fato de o Holocausto ter entrado na esfera da política.
Na palestra, uma garota, keffieh palestino no pescoço, pergunta-lhe
por que há tão poucos caçadores de nazistas no mundo. O tema é fundamental,
diz o historiador, mas hoje há coisas mais urgentes: “O Irã nuclear
e o jihadismo”.
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