Esta é uma corrida contra o tempo. O objectivo é capturar os derradeiros
responsáveis por campos de concentração nazis, por execuções em
massa ou tortura de presos.
Muitos deles nem mudaram de nome nem passaram à clandestinidade ou se exilaram
num país das Américas ou do Médio Oriente. A maioria foi desmobilizada
e tornaram-se cidadãos respeitáveis, independentemente do seu passado.
Um caso emblemático foi o de Kurt-George Kiesinger,
chanceler alemão entre 1966 e 1969. Kiesinger desempenhou funções
da mais alta responsabilidade na máquina de propaganda da diplomacia
do III Reich. Detido pelos Aliados durante ano e meio, regressou
à política em 1949, sendo eleito para o primeiro Parlamento da
República Federal Alemã (RFA).
Será depois chefe do governo regional de Baden-Württemberg.
Em 1966, aos 62 anos, chega a chefe do Governo da RFA, com o apoio
dos sociais-democratas do SPD. A sua ligação ao regime nazi só
é revelada durante um congresso da CDU, em 1968, quando a "caçadora de nazis" Beate Klarsfeld o esbofeteia enquanto lhe grita "Nazi Kiesinger, demite-te!". No ano seguinte, o SPD alia-se aos liberais do FDP, causando a queda do Governo
do democrata-cristão Kiesinger.
Para Efraim Zuroff, do Centro Simon Wiesenthal,
activamente envolvido na perseguição aos criminosos de guerra,
1968 e o caso Kiesinger marcam o início daquela corrida e da recuperação
da memória sobre os crimes de guerra nazis.
É nesta época que vários Governos, entre os quais
o americano, tomam a sério a identificação de homens e mulheres
ligados ao regime nazi ou de regimes colaboracionistas, muitos
que foram viver para a Grã-Bretanha ou para os EUA, países onde
obtiveram a cidadania.
Não é por acaso que nos EUA se têm multiplicado
as decisões de perda de nacionalidade, sendo o caso mais recente
o do ucraniano John Demjanjuk (ver caixa).
Foi em 1971 que os EUA iniciaram esta política,
ao retirarem a nacionalidade a Hermine Braunsteiner. Guarda em
campos femininos de extermínio ou de trabalho, Braunsteiner foi
extraditada, julgada e condenada a pena perpétua na Alemanha pelo
envolvimento, directo ou indirecto, na morte de mais de 1100 pessoas.
Morreu em 1999.
Mas se figuras importantes do regime nazi voltaram
a ocupar cargos públicos no pós-guerra, como Kiesinger, outros
passaram à clandestinidade, desaparecendo para sempre. Em muitos
casos, "não há corpo, não há cadáveres, não há campa", dizia recentemente Zuroff, a propósito de Aribert Heim, conhecido como o "doutor morte" pelas suas experiências com prisioneiros do campo de Mauthausen.
Uma recente investigação ZDF/New York Times concluía
que Heim teria morrido em 1992, no Cairo, onde viveu sob pseudónimo.
Zuroff, assim como a polícia alemã, consideram pouco credível esta
tese - independentemente do "doutor morte" estar ou não vivo.
Este é um daqueles casos em que, após 1945, uma
figura relevante na hierarquia do aparelho de repressão nazi regressou
ao dia-a-dia, vivendo e trabalhando como médico na cidade onde
nascera. Só quando a polícia alemã iniciou uma investigação ao
seu passado, é que Heim passou à clandestinidade. Caso fosse encontrado
vivo, Heim, que teria hoje 94 anos, tornar-se-ia, segundo Zuroff,
o "mais importante criminoso de guerra nazi a ser capturado nos últimos 30 anos."
Provavelmente, o último de todos. A média de idades
dos indivíduos ainda procurados, está acima dos 80 anos (ver texto
nesta página). Comentando a idade avançada como elemento de mitigação
da violência dos crimes, Zuroff nota "que a passagem do tempo não reduz a culpa do criminoso. Se fosse estabelecido
um limite cronológico à possibilidade de serem acusados, estaríamos
a dizer que até o genocídio pode ser legitimado, o que seria um
escândalo moral".
Apesar da idade avançada dos criminosos de guerra
nazis, possivelmente ainda vivos, decorrem de 600 investigações
sobre estes elementos. A maioria envolve o Centro Simon Wiesenthal,
que tem sido decisivo na sua identificação.
Entre executores ou responsáveis pela repressão
na Alemanha e na Europa ocupada, o Centro estima que, nos últimos
sete anos, 76 foram identificados e condenados. Condenações que
abrangem de extradições a perda de nacionalidade e deportações
para os países de origem.
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