10 de Maio de 2009 23:46 dn.sapo.pt
Em busca dos últimos criminosos de guerra nazis

Esta é uma corrida contra o tempo. O objectivo é capturar os derradeiros responsáveis por campos de concentração nazis, por execuções em massa ou tortura de presos.

Muitos deles nem mudaram de nome nem passaram à clandestinidade ou se exilaram num país das Américas ou do Médio Oriente. A maioria foi desmobilizada e tornaram-se cidadãos respeitáveis, independentemente do seu passado.

Um caso emblemático foi o de Kurt-George Kiesinger, chanceler alemão entre 1966 e 1969. Kiesinger desempenhou funções da mais alta responsabilidade na máquina de propaganda da diplomacia do III Reich. Detido pelos Aliados durante ano e meio, regressou à política em 1949, sendo eleito para o primeiro Parlamento da República Federal Alemã (RFA).

Será depois chefe do governo regional de Baden-Württemberg. Em 1966, aos 62 anos, chega a chefe do Governo da RFA, com o apoio dos sociais-democratas do SPD. A sua ligação ao regime nazi só é revelada durante um congresso da CDU, em 1968, quando a "caçadora de nazis" Beate Klarsfeld o esbofeteia enquanto lhe grita "Nazi Kiesinger, demite-te!". No ano seguinte, o SPD alia-se aos liberais do FDP, causando a queda do Governo do democrata-cristão Kiesinger.

Para Efraim Zuroff, do Centro Simon Wiesenthal, activamente envolvido na perseguição aos criminosos de guerra, 1968 e o caso Kiesinger marcam o início daquela corrida e da recuperação da memória sobre os crimes de guerra nazis.

É nesta época que vários Governos, entre os quais o americano, tomam a sério a identificação de homens e mulheres ligados ao regime nazi ou de regimes colaboracionistas, muitos que foram viver para a Grã-Bretanha ou para os EUA, países onde obtiveram a cidadania.

Não é por acaso que nos EUA se têm multiplicado as decisões de perda de nacionalidade, sendo o caso mais recente o do ucraniano John Demjanjuk (ver caixa).

Foi em 1971 que os EUA iniciaram esta política, ao retirarem a nacionalidade a Hermine Braunsteiner. Guarda em campos femininos de extermínio ou de trabalho, Braunsteiner foi extraditada, julgada e condenada a pena perpétua na Alemanha pelo envolvimento, directo ou indirecto, na morte de mais de 1100 pessoas. Morreu em 1999.

Mas se figuras importantes do regime nazi voltaram a ocupar cargos públicos no pós-guerra, como Kiesinger, outros passaram à clandestinidade, desaparecendo para sempre. Em muitos casos, "não há corpo, não há cadáveres, não há campa", dizia recentemente Zuroff, a propósito de Aribert Heim, conhecido como o "doutor morte" pelas suas experiências com prisioneiros do campo de Mauthausen.

Uma recente investigação ZDF/New York Times concluía que Heim teria morrido em 1992, no Cairo, onde viveu sob pseudónimo. Zuroff, assim como a polícia alemã, consideram pouco credível esta tese - independentemente do "doutor morte" estar ou não vivo.

Este é um daqueles casos em que, após 1945, uma figura relevante na hierarquia do aparelho de repressão nazi regressou ao dia-a-dia, vivendo e trabalhando como médico na cidade onde nascera. Só quando a polícia alemã iniciou uma investigação ao seu passado, é que Heim passou à clandestinidade. Caso fosse encontrado vivo, Heim, que teria hoje 94 anos, tornar-se-ia, segundo Zuroff, o "mais importante criminoso de guerra nazi a ser capturado nos últimos 30 anos."

Provavelmente, o último de todos. A média de idades dos indivíduos ainda procurados, está acima dos 80 anos (ver texto nesta página). Comentando a idade avançada como elemento de mitigação da violência dos crimes, Zuroff nota "que a passagem do tempo não reduz a culpa do criminoso. Se fosse estabelecido um limite cronológico à possibilidade de serem acusados, estaríamos a dizer que até o genocídio pode ser legitimado, o que seria um escândalo moral".

Apesar da idade avançada dos criminosos de guerra nazis, possivelmente ainda vivos, decorrem de 600 investigações sobre estes elementos. A maioria envolve o Centro Simon Wiesenthal, que tem sido decisivo na sua identificação.

Entre executores ou responsáveis pela repressão na Alemanha e na Europa ocupada, o Centro estima que, nos últimos sete anos, 76 foram identificados e condenados. Condenações que abrangem de extradições a perda de nacionalidade e deportações para os países de origem.

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